O dia em que um passarinho cagou na minha cabeça

Fui alvejado por passarinhos outras vezes na vida, mas essa foi a mais marcante. Ela aconteceu em 2008, época que eu tinha acabado de voltar do Japão e estava com dificuldade de encontrar emprego. As minha únicas experiências profissionais que eu havia tido no Brasil até então tinha sido em transportadoras de cargas, e depois de algum tempo sem trabalhar, meio no desespero, acabei aceitando uma nova oportunidade que apareceu.

Meu momento

Passarinho

Eu morava em Curitiba, e um cara estava se mudando pra lá para abrir a filial de uma empresa de transportes de Londrina. Ele não tinha clientes ainda, mas precisava de alguém para ficar no escritório enquanto ele prospectava novos clientes. Como o orçamento era baixo, ele morava no escritório e havia apenas uma divisória de madeira que separava os ambientes, sem porta nem nada. Era uma sala grande, desses salões comerciais com porta de ferro que pode abrigar desde uma padaria, academia ou qualquer outro tipo de empresa, então ficava aquele aspecto de ambiente vazio.

Além de auxiliar a prospecção de clientes, pesquisando empresas e tentando agendar uma eventual visita, eu não tinha muito trabalho a ser feito então passava o dia lendo blogs na internet. O tédio era meu companheiro e eu não estava feliz naquele ambiente.

O passarinho

Minha mesa ficava no fundo da sala de frente pra porta da rua, e no fatídico dia no final da tarde, sentado na frente do computador apenas esperando o horário de ir pra casa, vejo um único passarinho sentado no fio, parado. Não tinha nenhum movimento na rua, nem carro ou pedestres. Apenas eu olhando para aquela ave por mais de um minuto. Ambos estáticos.

De repente ele desce até a calçada, aguarda um instante e alça voo em minha direção. Veio ligeiramente pela minha esquerda, o suficiente para fazer uma curva longa e suave sobre mim, momentos antes de chegar solta seus excrementos, assim como um bombardeiro, calculando o instante exato para a trajetória curvilínea da merda acertar o seu alvo. Depois finaliza sua curva e sai pela mesma porta que entrou.

Por mais que possa parecer exagero, é sério. Aquele passarinho entrou naquela sala com o único objetivo de cagar na minha cabeça. Com seus movimentos friamente calculados ele me acertou de propósito. Impossível que aquilo tenha sido obra do acaso.

Eu não acredito em sinais do destino, ou qualquer outra coisa do tipo. Mas aquilo soou como um sinal pra mim, de que aquele trabalho não estava me fazendo bem e eu não deveria estar ali. Aquele foi meu último dia de trabalho naquela transportadora. Fui embora e resolvi não voltar mais.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.